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A tatuagem e a manualidade
Manuela Finocchiaro
Fiz minha primeira tatuagem no meio do terceiro semestre da faculdade de design. No entanto, com quinze anos já havia passado incontáveis horas no Pinterest procurando qual seria minha primeira tatuagem, fui para os clássicos abelhas realistas, ornamentos fine line e até mesmo cogitei algumas aquarelas (coisas que nunca faria hoje). Mas foi só um ano depois de completar a maioridade que lembrei da minha recém adquirida liberdade, podendo agora fazer o que quisesse…e fiz. Escolhi uma arte qualquer em handpoke e marquei com um artista visual do Rio para me tatuar em uma terça-feira qualquer em um estúdio localizado em uma casa no meio do Morumbi.
Anticlimático e sem significado mas inesperadamente libertador. Uma sensação genuína que nunca tinha experimentado antes. Foi uma hora e meia rápida e tranquila onde senti pela primeira vez a sensação específica da tatuagem: vários arranhões de gatos por segundo, as variações de silêncio e conversas justapostas com divagações minhas sobre as artes que superlotam as paredes, criando uma relação especial. Uma junção da adrenalina, dor e apreciação da arte. Um momento de contemplação sobre o ser e o estar, onde percebesse a mudança semi-permanente no corpo e mesmo assim ficando em paz. Tudo isso veio acompanhado de uma sensação de euforia por me sentir pertencente àquele lugar, como se aquela experiência reafirmasse aquilo que sou e quero ser.
Quase sempre de artistas diferentes, seguiram-se várias outras sessões de tatuagem, embora isso não fosse uma escolha consciente. Assim que a troca acontecia, a sensação voltava e me satisfazia imensamente. Aos poucos a coleção aumentava e ter muitas tatuagens começou a ser uma característica minha, apesar de estar longe de preencher o corpo todo. Por mais que a maioria delas não tivesse um significado específico, todas exalavam a minha personalidade e, de certa maneira, ajudaram a construí-la, como a figura mística do Ouroboros engolindo sua cauda, sem saber o que é o fim e o início.
Assim como minha primeira tatuagem, a decisão de tatuar também veio de maneira inesperada. Vi um post sobre um curso de iniciantes da tatuagem em um estúdio conhecido de Pinheiros e abruptamente decidi que iria participar, independente do valor. Ainda que acostumada a desenhar, a tatuagem se provou totalmente diferente do esperado e com um nível (técnico) de dificuldade muito maior, o peso da máquina e sua vibração constante certamente não pareciam o cenário ideal em um momento que precisão era necessário. Além disso, a insegurança, o medo e a indignação de não ser perfeita em algo novo me fizeram demorar um bom tempo até tomar coragem para começar a praticar de verdade. A cobaia foi minha mãe que, com todo amor que sentia por mim, aceitou independente do resultado. Apesar dos treinos em pele falsa o choque veio quando percebi que a sensação era completamente diferente, muito mais delicada e mutável, a agulha entrava e estava em minhas mão a decisão do quanto ela iria adentrar e o quanto de tinta iria ficar na derme.
Sem perfeição mas com resultado relativamente satisfatório concluí o que eu considerava minha única barreira para começar a tatuar. Com o intuito de levar isso adiante, percebi que não seria viável nem seguro receber estranhos em casa, sem saber por onde começar a procura por um estúdio acabei empurrando com a barriga essa decisão e me deixei ser engolida pelas demandas da faculdade e do estágio. É muito fácil se deixar levar, deixar que os outros escolham por você o que deve priorizar e foi isso que fiz. A ideia de tatuar, que no começo parecia uma possibilidade distante e até um pouco assustadora, foi ficando em segundo plano enquanto eu tentava dar conta de tudo que esperavam de mim.
Apesar de estar dando tudo “certo” com minha vida profissional, me vi inquieta e insatisfeita , se atingir todas as expectativas dos outros para mim não me fazia feliz então, o que faria? Acho que quando escolhi o design, uma parte de mim acreditava que seria uma profissão criativa e consideravelmente livre de burocracias. Mas as incontáveis horas na frente de um computador ajustando uma tipografia até sua perfeição, a preocupação com coisas insignificantes para mim como a rede social da empresa ou o tempo que teria para produzir as mais de 20 artes gráficas do dia, me provaram o contrário de tudo que pensava sobre a área. E assim decidi que esse estilo de vida não era o suficiente para mim.
Não ter um estúdio para tatuar, a barreira que tinha me desanimado a meses antes, se tornou pequena quando percebi que precisava apenas de pouca vergonha e coragem para começar algo novo, isto exige muito dos dois. Pouco tempo depois da minha decisão, fui chamada para tatuar em um estúdio muito querido por mim, por uma amiga e colega de ramo que conheci em uma das minhas empreitadas para adentrar o mundo da tatuagem: um curso de biossegurança. E assim oficialmente iniciei esse processo.
Foi um êxtase quando descobri que a sensação não nomeada que sentia todas as vezes que fui tatuada existia também quando eu era tatuadora. Me via indo tatuar em um dia triste e saindo de lá realizada, contente até mesmo nas pequenas coisinhas, como montar e desmontar da bancada de tatuagem, separar os papeis, a água com sabão, o álcool. E que surpresa foi quando vieram até mim pessoas que genuinamente admiravam aquilo que eu fazia, adoravam meus desenhos e estavam animadas para tatuar comigo. A insegurança e excesso de cobrança minha comigo mesma me fizeram acreditar por muito tempo que eu não era capaz mas ali, vi diversos indivíduos que não me provaram o contrário.
Assim, comecei a ver o processo de maneira meditativa. Podia ficar horas tatuando, sem pensar em nada, apenas focando na ação da minha mão. Uma espécie de atenção profunda e contemplativa, como a que Walter Benjamin associa ao recolhimento, Versenkung, que apenas o trabalho manual me proporciona. A impossibilidade de multitarefas e, consequentemente, o foco fazem com que a atividade seja mais proveitosa. Por isso, as horas passavam e, se não fosse pela dor no meu corpo, não seria capaz de dizer que passei muito tempo ali. E o quão incrível são as trocas com os diversos tipos de pessoa que aparecem, mais velhas ou mais novas todas parecem me contar algo que não sabia ou compartilhar de um interesse em comum que me fazem sentir um ânimo enorme.
Um amigo e colega de tatuagem um dia compartilhou comigo sua filosofia sobre tatuar: todo o processo faz parte da arte. O jeito que o decalque ficou de primeira (a forma como transferimos o desenho por meio de papel carbono na pele da pessoa), as pequenas diferenças notáveis entre o desenho inicial e o final já na pele, a conversa com o cliente onde apesar de na maioria das vezes conhecidos por pouco tempo já se abrem sobre sua vida. Acredito que seja uma leitura interessante, realmente todo processo quando visto assim se torna sobre troca e não necessariamente sobre cliente e prestador de serviço.
A tatuagem acaba sendo um certo refúgio para mim, como designer de formação o mundo pode parecer muito automatizado, com pouca liberdade criativa e menos ainda contato um com o outro. A liberdade de criar, ter autonomia e tempo para explorar te dá uma sensação de plenitude com aquilo que você gera, te ensina a apreciar o processo em vez de apenas o resultado. A manualidade da área traz uma conexão muito maior com a ação, mesmo desenhando no digital é apenas na pele que o resultado final será visto, não existe opção de concretizar a criação senão com pele e com a agulha.